Poucos cães têm tanta energia contida em um corpo de porte médio quanto o Pastor Australiano, também conhecido pelo nome em inglês, Australian Shepherd. Aquela pelagem merle, os olhos que às vezes vêm em cores diferentes, o olhar atento: é fácil se apaixonar pela imagem do Aussie. Mas existe uma diferença enorme entre o cão bonito das fotos e o cão de trabalho que vai morar com você.

Essa raça foi feita para pastorear o dia inteiro. Inteligência aguda, instinto de pastoreio forte e disposição para trabalhar sem parar são a marca registrada do Aussie, e é justamente esse pacote completo que costuma pegar tutores de surpresa.

Este guia existe para apresentar o Pastor Australiano do jeito que ele realmente é, não só o jeito bonito.

Características da raça em resumo

O AKC (American Kennel Club) avalia o Pastor Australiano nas seguintes dimensões. As escalas abaixo refletem as pontuações originais do AKC adaptadas para o contexto brasileiro:

CaracterísticaNível
Afeto com a famíliaMuito alto
Amizade com criançasBoa, com supervisão
Amizade com outros cãesBoa
Queda de peloAlta
Frequência de escovaçãoSemanal (diária na troca)
BabaBaixa
Tipo de pelagemDupla
Comprimento da pelagemMédio
Abertura com estranhosModerada a reservada
Nível de brincadeiraAlto
Instinto de guardaAlto
AdaptabilidadeModerada
Facilidade de treinoMuito alta
Nível de energiaMuito alto
Nível de latidoModerado, mais para alertar
Necessidade de estímulo mentalMuito alta

Tamanho e expectativa de vida (AKC):

  • Altura na cernelha: 51-58 cm (machos) e 46-53 cm (fêmeas)
  • Peso: 23-29 kg (machos) e 18-25 kg (fêmeas)
  • Expectativa de vida: 12 a 15 anos
  • Grupo: Pastoreio (Grupo 1 na classificação FCI/CBKC)
  • Popularidade no AKC: 12ª raça mais popular entre 208 reconhecidas

A cauda é uma das características físicas mais variáveis da raça, e essa variação é genética, não uma questão de corte. Cerca de um em cada cinco Pastores Australianos nasce com o chamado “natural bobtail” (cauda naturalmente curta ou ausente), causado por um gene de dominância incompleta, o mesmo tipo de herança do gene merle. Cães com uma cópia do gene nascem com o bobtail natural, mas o próprio gene não determina o comprimento exato nem se a cauda será reta ou torta, isso depende de outros fatores genéticos. Filhotes que herdam duas cópias do gene não sobrevivem à gestação, o que reduz o tamanho da ninhada. Por isso, dois cães com bobtail natural não devem ser cruzados entre si, sob risco de defeitos na coluna dos filhotes. Os Pastores Australianos que não carregam o gene nascem com a cauda longa e completa, igualmente aceita pelo padrão da raça.

Existe uma explicação funcional tradicional para essa característica ter sido valorizada pelos criadores: o estilo de pastoreio do Pastor Australiano é diferente do Border Collie. O Border Collie trabalha à distância, controlando o rebanho com o olhar fixo, o chamado “olho forte”. Já o Aussie usa um estilo mais próximo, “olhar solto”, flanqueando o gado bem de perto, empurrando e latindo para conduzir o rebanho. Essa proximidade física constante aumenta o risco de o próprio gado pisar ou prender a cauda do cão, o que teria tornado a cauda mais curta uma vantagem prática no trabalho de campo.

A história por trás da raça

A história do Pastor Australiano começa bem longe da Austrália. A raça descende de linhagens europeias de pastores, com origem nas montanhas dos Pirineus, na fronteira entre França e Espanha. Foi ali que o povo basco desenvolveu, ao longo de séculos, sua reputação como pastores de elite. O cão de pastoreio preferido dos bascos, o Pastor dos Pirineus, é o ancestral direto do Aussie moderno.

No início dos anos 1800, bascos migraram para a Austrália em busca de pastagens para criação de gado, levando consigo seus cães pastores. Na Austrália, cruzaram esses cães com raças britânicas importadas, incluindo Collies e Border Collies, refinando ainda mais o instinto de pastoreio. Depois de estabelecer seus rebanhos, muitos desses bascos seguiram viagem para a Califórnia, nos Estados Unidos, levando os cães junto.

Os fazendeiros californianos viram esses cães de pastoreio trabalhando ao lado dos imigrantes bascos vindos da Austrália. Associaram a raça ao país de origem recente dos tutores, e não à sua real ancestralidade europeia. Foi assim que surgiu o nome Australian Shepherd, uma associação histórica e não geográfica.

Nos Estados Unidos, a raça se consolidou como cão de trabalho versátil em fazendas e ranchos. Ganhou popularidade com o boom da equitação estilo western (a cavalgada ao estilo cowboy americano) após a Segunda Guerra Mundial, e apareceu em rodeios, exposições equinas, filmes e programas de TV. O American Kennel Club reconheceu oficialmente a raça em 1991, e a incluiu no Herding Group (o Grupo de Pastoreio) em 1993.

2. Personalidade e temperamento

O padrão oficial descreve o Pastor Australiano como um cão de trabalho, inteligente, com forte instinto de pastoreio e guarda. É um companheiro leal, com disposição equilibrada, bom por natureza e raramente briguento. Pode se mostrar um pouco reservado em um primeiro encontro, o que é esperado e não deve ser confundido com agressividade. O próprio padrão considera qualquer sinal de timidez, medo ou agressividade uma falta grave.

Na prática, o Pastor Australiano é um cão extremamente apegado à família. Ele costuma acompanhar o tutor de cômodo em cômodo, e não é um cão feito para viver isolado no quintal: mesmo com bastante espaço disponível, como em uma fazenda, tende a escolher ficar por perto do tutor em vez de explorar sozinho. Existe até uma brincadeira comum entre tutores da raça: “você pode ter quantos Pastores Australianos couberem no seu banheiro”, porque eles insistem em acompanhar o tutor para absolutamente todo lugar, banheiro incluído.

O que os tutores frequentemente não esperam

Que a energia do Aussie tenha um propósito específico, não seja só disposição para brincar. O padrão de referência aqui costuma ser o Border Collie: o Border tem energia praticamente sem fim, enquanto a energia do Pastor Australiano, embora muito alta, tem limite e ele sabe desligar depois de gasta. Isso engana muita gente, que espera um cão mais fácil de cansar e se frustra quando percebe que ainda assim precisa de bastante estrutura no dia a dia.

3. Necessidades reais

Exercício diário

O Pastor Australiano precisa de pelo menos uma a duas horas de atividade física por dia, além de espaço para se movimentar livremente. Caminhadas curtas e sem propósito não bastam para uma raça de trabalho como essa.

Estímulo mental

Mais do que exercício físico, o Aussie precisa de uma função. Pode ser pastorear de fato, ou participar de esportes caninos que exijam raciocínio e obediência. Um Pastor Australiano sem estímulo mental suficiente tende a criar seus próprios “projetos” para gastar energia, o que geralmente significa comportamento destrutivo dentro de casa.

Contato social e atenção

Pastores Australianos se apegam fortemente à família, e por isso podem se tornar territoriais e superprotetores em relação à casa e aos donos. Alguns apresentam comportamento destrutivo quando ficam sozinhos por longos períodos com frequência. Isolamento prolongado não combina com essa raça.

4. Atividades ideais para o Pastor Australiano

Provas de pastoreio e agility

O Pastor Australiano tem inteligência e agilidade de sobra para competir em provas de pastoreio (herding trials), a atividade mais fiel ao propósito original da raça, e também em agility, onde costuma se destacar pela obediência e pela vontade de agradar o tutor.

Canicross

Foi com o Simon, red tri, que comecei a treinar canicross. Ele fica super animado quando pego o arnês dele e coloco meus tênis de trilha e adora sair pra treinar, mas tem um limite claro de temperatura: não treina acima de 20°C, e mostra sinais de fadiga se aproximando de mim durante a corrida. Prestar atenção a esses sinais é essencial para qualquer Aussie corredor.

Salto em água (dock diving)

Cães da raça também costumam se sair bem no salto em água para buscar objetos (dock diving), especialmente os exemplares com mais afinidade por atividades aquáticas. Não é o instinto mais forte da raça, como é no Golden Retriever, mas boa parte dos Aussies gosta bastante da atividade.

Faro recreativo

O faro recreativo é uma ótima opção para gastar energia mental sem exigir grande esforço físico, principalmente em dias de calor, chuva ou de recuperação entre treinos mais intensos.

5. O que você precisa saber antes de ter um Pastor Australiano

Alertas honestos

O instinto de pastoreio aparece mesmo sem rebanho por perto. O Pastor Australiano tem um impulso quase irresistível de pastorear tudo que se move: pássaros, outros cães, crianças correndo. Perseguir, cercar e até dar uma mordiscada leve em quem corre por perto são reações ligadas diretamente à genética de pastoreio, não a mau caráter. Famílias com crianças pequenas precisam trabalhar cedo para que o cão aprenda a não tratar a criança como parte do rebanho, e o mesmo vale para passeios perto de ciclistas e corredores.

Ravi, por exemplo, é cão terapeuta e trabalha com crianças autistas tranquilamente. Mesmo quando as crianças brincam de correr, ele não entra em ‘modo pastoreio’.

Simon corre ao lado de outras pessoas, cães e ciclistas ignorando esses estímulos e seguindo com o treino.

Assim, alguns cães terão mais ou menos drive de pastoreio, mas, com prevenção e treinamento adequado isso não se torna um problema.

A mutação MDR1: um cuidado que pode salvar a vida do seu cão

Um ponto de saúde específico da raça merece atenção redobrada: a mutação no gene MDR1. Cerca de metade dos Pastores Australianos carrega pelo menos uma cópia dessa mutação, que compromete a forma como o organismo do cão elimina certos medicamentos do cérebro.

Cães com a mutação podem ter reações graves a substâncias como ivermectina, loperamida, acepromazina e alguns quimioterápicos. Os sintomas incluem pupilas dilatadas, vômitos, tremores, dificuldade de locomoção, hipersalivação e, nos casos mais sérios, convulsões e coma.

A boa notícia é que existe um teste de DNA simples, feito uma única vez na vida do cão, que identifica a mutação com precisão. Vale fazer esse teste logo no início e guardar o resultado junto com a lista de medicamentos de risco, para apresentar a qualquer veterinário que for tratar o seu Pastor Australiano no futuro.

Lista de drogas perigosas para a mutação MDR1.

O tutor ideal para um Pastor Australiano

Alguém com rotina ativa de verdade, não só a intenção de ter uma. Famílias com crianças funcionam bem, desde que haja supervisão e trabalho ativo com o instinto de pastoreio. Pessoas que passam muito tempo fora de casa, ou que buscam um cão de quintal, tendem a ter mais dificuldade com a raça.

Erros comuns de tutores de Pastor Australiano

Escolher o filhote só pela cor da pelagem ou pelos olhos azuis, sem entender a raça. Subestimar o nível de energia por comparação com raças pequenas. Achar que o cão vai se contentar com o quintal, sem contato próximo com a família. Não trabalhar cedo o instinto de perseguir. Deixar de lado o teste de MDR1 antes de qualquer procedimento veterinário. Se você não fizer o teste, uma dica é sempre evitar as drogas na lista. Sempre avise o veterinário! Nem todos conhecem a raça.

Como comprar com responsabilidade

Um criador responsável testa os reprodutores antes de qualquer cruzamento, cobrindo pelo menos as condições mais comuns na raça: displasia coxofemoral, doenças genéticas oculares, epilepsia e a mutação MDR1. Ele também costuma aplicar algum tipo de processo seletivo com o comprador, com perguntas sobre rotina, espaço disponível e expectativas.

Um sinal claro de criador responsável é a disposição para recusar uma venda. É comum criadores de Pastor Australiano receberem pedidos de gente que quer um filhote só por causa da cor da pelagem, ou porque quer especificamente os dois olhos azuis, sem nenhuma preocupação em entender a raça ou se aquele filhote combina com a rotina que pode oferecer. Um criador comprometido com o bem-estar dos animais não vende nessas condições.

No Brasil, o Canil Hope Aussie, de Sarah Hannah, é uma referência na raça desde 2016, com registro CBKC. Os filhotes saem de lá já socializados e dessensibilizados, com protocolo básico de obediência e já educados no tapetinho, preparados para uma adaptação mais tranquila à nova casa. O suporte da criadora também não termina na entrega do filhote: ela segue disponível por WhatsApp para dúvidas ao longo de toda a vida do cão. Foi desse canil que vieram o Simon, red tri, e o Ravi, blue merle, os dois Pastores Australianos que inspiram este blog.

6. Cuidados e saúde para vida ativa

Pastores Australianos costumam ser cães saudáveis, mas criadores responsáveis testam os reprodutores para condições como displasia coxofemoral, epilepsia, catarata e alguns tipos de câncer. Os testes de saúde recomendados pelo clube nacional da raça nos Estados Unidos incluem avaliação de quadril, avaliação de cotovelo e avaliação oftalmológica.

A pelagem dupla e impermeável exige escovação semanal, com uso de rastelo para subpelo a cada dois ou três dias durante a época de muda. Banhos costumam ser necessários só ocasionalmente, e as unhas precisam de corte regular, como em qualquer raça.

Consulte um veterinário regularmente e leve o histórico do teste de MDR1 do seu cão em qualquer procedimento que envolva anestesia ou medicação, mesmo em consultas de rotina.

Perguntas frequentes sobre o Pastor Australiano

Pastor Australiano é uma raça boa para apartamento?

Pode ser, desde que o tutor consiga suprir a necessidade diária de exercício e estímulo mental fora de casa. O espaço reduzido em si não é o maior obstáculo, o nível de energia da raça é.

Pastor Australiano é agressivo com crianças?

Não. O comportamento de perseguir ou cercar crianças vem do instinto de pastoreio, não de agressividade. Ainda assim, a supervisão e o treinamento são importantes para evitar acidentes durante brincadeiras mais agitadas.

Qual a diferença entre Pastor Australiano e Border Collie?

Os dois são raças de pastoreio, inteligentes e de alta energia, mas têm origens diferentes. O Border Collie vem do Reino Unido, e o Pastor Australiano se desenvolveu nos Estados Unidos, com influência de linhagens basco-pirenaicas. O temperamento também varia: o Border Collie tem energia praticamente sem fim, enquanto a energia do Pastor Australiano, embora alta, tem limite e ele sabe desligar depois de gasta. Fisicamente, o Aussie costuma ter porte um pouco mais robusto, além da possibilidade do bobtail natural (cauda geneticamente curta), algo que não ocorre no Border Collie.

O Pastor Australiano late muito?

Costuma ser vocal diante de mudanças no ambiente, já que também carrega instinto de alerta, mas não é uma raça conhecida por latido excessivo sem motivo. Falta de exercício e tédio tendem a aumentar a vocalização.

Todo Pastor Australiano tem olhos de cores diferentes?

Não. A heterocromia (um olho de cada cor) acontece com frequência na raça, principalmente em exemplares merle, mas não é uma regra. Muitos Aussies têm os dois olhos da mesma cor, dentro das variações aceitas pelo padrão.

O que é a mutação MDR1 e por que ela é importante no Pastor Australiano?

É uma alteração genética presente em cerca de metade da raça, que afeta a forma como o cão processa certos medicamentos, como ivermectina e loperamida. Um simples teste de DNA identifica a mutação e evita reações graves durante tratamentos veterinários futuros.

Conhecer é o primeiro passo para uma boa convivência

O Pastor Australiano entrega inteligência, lealdade e disposição para o trabalho em doses generosas, mas cobra do tutor rotina, consistência e bastante atividade física em troca. Quando o tutor entende de onde vem essa energia toda, esse instinto de pastorear tudo que se move, esse apego quase colado ao corpo, a convivência muda completamente.

Conhecer a raça é a base de qualquer comunicação real entre você e o seu Aussie. Se você já tem um Pastor Australiano em casa, vale a leitura complementar sobre comportamento de raça e instinto, que detalha como o instinto de pastoreio se manifesta no dia a dia.

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