Tinha pago a inscrição. E no dia da prova, fiquei em casa.
Essa é a história do dia em que escolhi não participar de uma etapa do Rocky Mountain Games por causa do calor, e por que essa foi, sem dúvida, a decisão certa.
A primeira prova e a animação com a segunda
Minha primeira prova de canicross com o Simon foi a etapa do Rocky Mountain Games em Campos do Jordão, em 2025. Foi uma experiência incrível, e a vontade de repetir foi imediata.
Me inscrevi para a etapa de 2026, em março, em Juquitiba.
Quando fui fazer a inscrição e li as especificações no site, encontrei algo que me chamou atenção: largada às 8h da manhã. Na etapa anterior, em Campos do Jordão, a largada tinha sido às 7h, com clima mais ameno. Pensei: erraram o horário. Março está quente, eles vão corrigir conforme a data chegar.
Não corrigiram.
O horário confirmado e a previsão que não mentiu
Existe um grupo de WhatsApp do Rocky Mountain Games onde os participantes acompanham as novidades. Conforme a data da prova foi chegando, o horário das 8h foi sendo confirmado. Sem alteração.
Eu já tinha olhado a previsão do tempo antes de fazer a inscrição e já tinha uma pulga atrás da orelha. Com o horário confirmado, fui, portanto, acompanhar a previsão mais de perto.
Choveu na semana da prova. Tempo abafado. E a previsão para o dia era de sensação térmica em torno de 23°C às 8h, subindo para 26°C por volta das 9h.
O percurso tinha 5 quilômetros. A gente provavelmente terminaria muito perto das 9h. Ou seja: largada já acima de 23°C, chegada perto dos 26°C, com ar abafado por causa da chuva da semana.
Para o Simon, esses números não deixam dúvida. A partir de 18°C ele já sente muito desconforto e cansa por volta de dois quilômetros. Acima de 20°C, eu simplesmente não corro com ele. Não é impressão, é o que o corpo dele mostra toda vez que tentamos.
A tentativa de alertar o grupo
Trouxe a questão das altas temperaturas para o grupo de WhatsApp da corrida. Compartilhei minha preocupação sobre o horário de largada e as condições previstas para o dia.
Não foi considerado.
Não estou aqui para apontar culpados, nem para reclamar. Afinal, estava escrito, eu que não acreditei. Organizar um evento é complexo, e sei que há muitas variáveis envolvidas. Mas quando especialistas em canicross indicam que acima de 22°C de temperatura o risco de superaquecimento é real, e a largada já seria acima disso, a conta não fecha.
A decisão
Não fui.
Não coloquei o Simon para correr cinco quilômetros começando acima de 22°C, com tempo abafado, sem perspectiva de melhora ao longo do percurso. Mesmo caminhando os cinco quilômetros, o que ele provavelmente precisaria fazer, seria difícil naquelas condições.
Perdi o valor da inscrição. Mas não perdi o kit: uma amiga que trabalhava no local de retirada pegou para mim. Foi um alívio pequeno, mas foi.
A paz de ter tomado essa decisão veio depois, quando conversei com uma pessoa que participou da prova. Ela confirmou: estava muito calor. Exatamente do jeito que a previsão indicava, e do jeito que eu imaginava.
O que essa história tem a ensinar
Não estou contando isso para criticar o evento. Estou contando porque essa situação ilustra algo que acontece mais do que deveria no mundo do canicross: a pressão e/ou entusismo para participar supera, às vezes, a leitura do que é seguro para o cão.
Pagar inscrição, planejar viagem, querer competir: tudo isso cria uma pressão real. É difícil abrir mão de algo que você estava animado para fazer. O cão, porém, não assinou o formulário de inscrição. Quem assinou foi você. E quem precisa garantir que ele está seguro também é você.
O Simon confia em mim. Ele vai correr se eu pedir. Ele vai tentar. E exatamente por isso, a decisão sobre quando é seguro para ele correr não pode ser dele: tem que ser minha.
No canicross, respeitar os limites do cão não é frescura. É a única forma de fazer o esporte durar.
Um número que vale lembrar
As diretrizes da ASSA (Australian Sleddog Sports Association), referência internacional em esportes de tração, recomendam não correr no canicross a partir de 22°C de temperatura aparente, e encurtar a distância entre 18°C e 21,5°C.
A Nonstop Dogwear, marca norueguesa especializada em equipamentos para cães atletas, publicou um guia de risco por temperatura baseado nos dados da Tufts Animal Condition and Care (TACC) que traduz isso de forma ainda mais visual. A escala vai de 1 a 5:

- Abaixo de 15°C – nível 1 para todos os portes: sem evidência de risco, pode aproveitar.
- 18°C – nível 1 para cães pequenos e médios, nível 2 para grandes: risco improvável, mas atenção.
- 21°C – nível 2 para pequenos e médios, nível 3 para grandes: potencialmente perigoso dependendo da raça.
- 23°C – nível 3 para todos: clima perigoso, atenção redobrada.
- 26°C – nível 3 para pequenos e médios, nível 4 para grandes: perigoso, use cautela.
- 29°C – nível 4 para pequenos e médios, nível 5 para grandes: potencialmente fatal, evite atividade prolongada ao ar livre.
- Acima de 32°C – nível 5 para todos os portes: emergência.
A escala ainda lembra que filhotes, idosos, obesos e braquicefálicos somam +1 no nível de risco, independentemente da temperatura. E que sombra e água disponível reduzem o risco em 1 ponto cada.
Não são sugestões. São critérios de bem-estar animal que existem porque o superaquecimento em cães durante o esforço é, afinal, uma emergência veterinária real, que pode evoluir para falência de órgãos.
A temperatura prevista para Juquitiba naquele dia estava na zona de não correr. Não havia margem de interpretação.
O que o Simon fez naquele dia
Ficamos em casa. Seguimos a nossa rotina: passeamos nos horários mais amenos do dia, com o percurso encurtado por causa do calor. Sem arrependimentos. Afinal, nada importa mais do que a segurança dele. E o canicross tem que ser divertido pra nós dois, não só pra mim.
E eu fiquei olhando para ele pensando: é exatamente para isso que serve saber ler o contexto. Para chegar em casa com o cão saudável, mesmo quando isso custa uma inscrição perdida.
Não me arrependo. E certamente faria a mesma escolha de novo.
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